



Caríssimos, deixemo-nos transportar de alegria e demos livre curso ao júbilo espiritual, pois raiou para nós o dia de uma redenção nova, dia longamente preparado, dia de felicidade eterna.
Caríssimos, animados da confiança que nasce de tão grande esperança, permanecei firmes na fé sobre a qual fostes estabelecidos, para que o Tentador, de cujo domínio Cristo vos subtraiu, não vos seduza novamente com algumas de suas ciladas e não corrompa as alegrias próprias desse dia mediante a habilidade de suas mentiras.
Honrai com uma obediência santa e sincera o mistério sagrado e divino da restauração do gênero humano. Uni-vos a Cristo, nascido em nossa carne, a fim de merecerdes ver reinando em Sua majestade esse mesmo Deus de glória que, com o Pai e o Espírito Santo, permanece na unidade da divindade pelos séculos dos séculos.
O Filho de Deus, que é Deus como Seu Pai; que recebe do Pai, Criador e Senhor de tudo, Sua mesma natureza; que está presente em toda parte e transcende o universo inteiro na sequência dos tempos, os quais de Sua Providência dependem, escolheu para Si um dia, a fim de em prol da salvação do mundo nele nascer da Bem-aventurada Virgem Maria, conservando intacto o pudor de Sua mãe.
O admirável parto da sagrada Virgem trouxe à luz uma Pessoa que, em Sua unicidade, era verdadeiramente humana e verdadeiramente divina, já que as duas naturezas não conservaram suas propriedades de modo tal que se pudessem distinguir como duas pessoas: não foi apenas ao modo de um habitador em seu habitáculo que o Criador assumiu a Sua criatura, mas, ao contrário, uma natureza como que se adicionou à outra. Embora duas naturezas, uma a assumente e outra a assumida, é tal a unidade que formam que um único e mesmo Filho poderá dizer-se, enquanto verdadeiro homem, menor que o Pai, e enquanto verdadeiro Deus, igual ao Pai.
Assim, para sermos novamente chamados dos grilhões originais e dos erros mundanos à eterna bem-aventurança, Aquele mesmo a quem não podíamos subir desceu até nós. Se realmente muitos eram os que amavam a verdade, a astúcia do Demônio iludia-os na incerteza de suas opiniões, e sua ignorância, ornada com o falso nome de ciência, arrastava-os a sentenças as mais diversas e opostas. A doutrina da Antiga Lei não era bastante para afastar essa ilusão que mantinha as inteligências no cativeiro do soberbo Demônio. Nem tampouco as exortações dos profetas lograriam realizar a restauração de nossa natureza. Era necessário que se acrescentasse às instituições morais uma verdadeira redenção, era necessário que uma natureza corrompida desde os primórdios renascesse em novo início.
Considerai atentamente, caríssimos, sob a luz do Espírito Santo, quem nos recebeu consigo e quem recebemos conosco: sim, como o Senhor se tornou carne nossa nascendo, também nós nos tornamos Seu Corpo renascendo. Somos membros de Cristo e templos do Espírito Santo, e é por isso que o Apóstolo diz: “Glorificai e trazei a Deus no vosso corpo”.
Com efeito, o Senhor Jesus Cristo veio para eliminar nossa corrupção, não para ser sua vítima; para trazer remédio aos nossos vícios, não para ser sua presa. Ele veio curar toda enfermidade, consequência de nossa corrupção, e todas as úlceras que manchavam nossas almas; como Ele trazia para nossos corpos humanos a graça nova de uma pureza sem mancha, foi necessário que Ele nascesse segundo um modo novo.
Hoje, amados filhos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos. Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida; uma vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. A causa da alegria é comum a todos, porque Nosso Senhor, vencedor do pecado e da morte, não tendo encontrado ninguém isento de culpa, veio libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida.

